Economia
Conversa Capital
CEO da Mota-Engil lamenta "visão miserabilista" nos concursos públicos que parece querer impedir empresas de ganharem dinheiro
Carlos Mota Santos, CEO da Mota-Engil, prevê que o aumento do preço dos combustíveis terá impacto na subida do custo da construção, com consequências no mercado da habitação e poderá levar a um adiamento dos investimentos para manter as contas públicas equilibradas.
Imagem: RTP / Edição vídeo: Pedro Chitas
Neste contexto de expansão, Carlos Mota Santos admite ainda que a empresa vai voltar a avançar para Espanha e concorrer a concessões rodoviárias. O CEO diz que "está na hora de fazer o teste do algodão para ver se há ou não reciprocidade entre Espanha e Portugal".
A par da internacionalização, a Mota-Engil vai continuar a apostar no mercado nacional. "Esta é a nossa casa", afirma Carlos Mota Santos, apesar de, como refere, não ser o mercado mais fácil nem aquele que mais reconhece a empresa. Lamenta "a visão miserabilista" que existe nos concursos públicos que parece querer impedir as empresas de ganhar dinheiro.
A ditadura de preços base muito baixos dos concursos para as obras públicas está, segundo Carlos Mota Santos, a atrasar o país porque "estamos sistematicamente a atrasar os investimentos e os projetos que são estruturais para a economia". Dá como exemplo a Alta Velocidade (AV), muito exigente do ponto de vista do preço.
Segundo Carlos Mota Santos, as obras do primeiro troço da AV vão avançar no segundo semestre e a empresa vai concorrer novamente, em consórcio, com outras empresas portuguesas, ao segundo troço.
Admite que houve "eventualmente" amor à camisola na decisão de avançar para a AV, lamentando simultaneamente que não se valorize o "simbolismo muito grande" e o "orgulho" de ser um consórcio 100 por cento português a arrancar com uma infraestrutura "tão importante".
Nesta entrevista ao Conversa Capital, o CEO da Mota-Engil, empresa que é a maior acionista da Lusoponte, revela que pretende disputar a próxima concessão das travessias do Tejo que deverá incluir a construção da travessia Chelas-Barreiro e do túnel submerso Algés-Trafaria.
Carlos Mota Santos defende mesmo que, do seu ponto de vista, "quanto mais depressa o Governo decidir lançar este concurso e não esperar por 2030, melhor". Refere que a empresa fará "sempre parte da solução" para "permitir antecipar timings", porque essas obras são vitais para a AV e para o novo aeroporto.
Sendo que a Mota-Engil também pretende concorrer à construção do novo aeroporto. Carlos Mota Santos considera que será "uma excelente oportunidade para a fileira da construção".
A Mota-Engil tem estado, desde o primeiro momento, envolvida na recuperação das construções danificadas pelo mau tempo na zona centro.
Durante 10 dias foram alocadas três equipas de 14 homens (42 no total) para reparações em casas e edifícios públicos. Atualmente já há um enquadramento jurídico para as empreitadas em curso, mas foram feitas algumas obras pro bono.
Sobre a atuação das câmaras diz que tem sido "célere e pragmática". Considera que a mão-de-obra é e continuará a ser um problema na construção civil se não existir um plano de curto e longo prazo para formar e canalizar imigrantes para o sector. Revela que ao abrigo da "via verde" a Mota-Engil já conseguiu trazer para Portugal mais de 200 trabalhadores.
Sobre a revisão da legislação do trabalho considera que as alterações têm de ir no sentido de existir mais flexibilidade e, consequentemente, mais competitividade das empresas. Ainda assim diz: "tenho vergonha de vivermos num país em que o salário medio é próximo do salário mínimo".
Por isso Carlos Mota Santos defende que é preciso dotar o país "das armas" que permitam às empresas criar riqueza e pagar melhor aos seus trabalhadores. Admite que atualmente "há uma menor demonização das grandes empresas".
Acrescenta que há falta de grandes empresas e, no contexto europeu, Portugal nem sequer tem um campeão mundial, ao contrário do que se passa com Espanha. Carlos Mota Santos espera que em matéria de legislação laboral haja acordo entre os parceiros para evitar crises políticas que não beneficiam nem a economia nem o país. Para o gestor, a legislação laboral não pode ser arma de arremesso política. Sobre a falta de habitações a preços acessíveis, o CEO da Mota-Engil refere que há mecanismos que podiam e deviam ser mais explorados e que passam nomeadamente por acordos entre autarquias e privados. Entrevista conduzida por Rosário Lira, da Antena 1, e Maria João Babo, do Jornal de Negócios.